Uma pequena leitora...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Céu - Manuel Bandeira

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha.
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão

.

Uma Garrafa no Mar de Gaza

Os noticiários estão repletos de notícias sobre os confrontos entre palestinos e israelenses. Tantos são os conflitos, os fracassos nas tentativas de paz! Atentados, homens-bomba, mísseis que partem de um lado para o outro, mas ao ler este livro o leitor se dá conta de que os dramas pessoais, por trás dos bastidores, são totalmente desconhecidos.
Israelenses e palestinos ganham corpo, identidade, ideias, destacam-se do coletivo e se tornam pessoas. E o resultado é um livro leve, saboroso, tocante, fluente, apesar do tema e da carga dramática. Mal percebemos quando questões existenciais dão lugar à descrição do contexto político-social, pois eles se mesclam na voz dos protagonistas, testemunhas dos eventos que povoam a mídia.
O leitor é tocado pelo olhar de dois jovens; é por meio deles que o quadro até então distante, captado pelas antenas da TV, chega finalmente ao coração e vibra em nossa compreensão. A autora tem o poder não só de nos aproximar dessa realidade complexa, mas também de torná-la visual. A impressão que temos, muitas vezes, é a de que estamos presenciando os fatos com nossos próprios olhos.
Tal Levine é uma garota israelense de 17 anos. Ela nasceu literalmente em meio a manifestações pela paz e em apoio ao povo palestino. Seus pais são convictos defensores da convivência pacífica entre os dois povos. A história tem início em setembro de 2003, na cidade de Jerusalém.
É noite e a protagonista está se preparando para dormir quando sua casa estremece. Uma explosão. Nas redondezas, mais precisamente no café Hillel. Entre as vítimas estava a jovem Nava Appelbaum, que horas depois se casaria. No momento do atentado ela estava ali, sentada ao lado do pai.
Este drama pessoal torna-se uma ideia fixa para Tal. Ela não se conforma com a escalada da violência e não quer reagir como os outros, com ódio no coração. Sua vida se desenrolou sempre sob o símbolo da esperança, e é esta pequena chama que a leva a tomar uma decisão arriscada.
A princípio Tal escreve apenas para desabafar, mas em meio à aula de Biologia ela se dá conta de que precisa compartilhar seus pensamentos com alguém. Então decide depositar suas palavras em uma garrafa e a entrega ao irmão, Eytan, soldado a serviço de Israel na fronteira com a Faixa de Gaza, para que a lance ao mar.
Sua intenção é que uma garota palestina, da mesma idade, com a mesma disposição para a tolerância, encontre sua mensagem e estabeleça um vínculo que sinalize para a possibilidade do diálogo entre as duas comunidades. O destino, porém, tem outros planos.
A garrafa é encontrada por um jovem palestino de 20 anos, Naim Al-Farjuk, identificado inicialmente como Gazaman. A interação é difícil, pois ao contrário de Tal ele já não acredita mais na paz, cedeu ao desencanto e a um cansaço mental crônico. Ele reage de forma negativa, zomba de Tal, mas a garota não desiste, e pouco a pouco encontra o caminho que leva ao seu coração.
As mensagens trocadas entre ambos retratam a realidade de Israel e da Palestina como jamais qualquer jornalista ou especialista no Oriente Médio poderia reproduzir. Nem mesmo um israelense ou um árabe com mentes e corações fechados poderiam traduzir tão bem esse impasse, bem como as semelhanças e diferenças entre ambos.
Uma das cenas mais emocionantes é a descrição do assassinato de Yitzhak Rabin, no fatídico dia 4 de novembro de 1995. Nunca a paz esteve tão perto, e a independência da Palestina tão próxima. Mas seus opositores estavam determinados a reverter o quadro, e os anseios de tantos foram mais uma vez frustrados.
Este panorama é apresentado ao leitor primeiro do ponto de vista de Tal, depois sob a ótica de Naim. O evento, por tanto tempo transmitido pela mídia, ganha aqui outra dimensão. O leitor tem a oportunidade de viver esse momento como se estivesse na pele dos personagens, com suas expectativas, desejos, alegrias, decepções, desesperos, desencantamentos.

Charge e Tirinha sobre o tema Bullying







quinta-feira, 16 de maio de 2013

“O Búfalo” de Clarice Lispector



No conto “O Búfalo”, Clarice Lispector apresenta uma personagem que, rejeitada pelo homem que ama, vai ao zoológico, onde pensa encontrar ódio e animalidade, e parece querer não só legitimar o seu próprio ódio, encontrar-se com este sentimento, mas também matar um pouco do amor existente em si. A adversidade que consiste na narrativa aparece já no primeiro momento em que ela entra no zoológico. Neste ambiente, encontra-se com um animal solitário, com o qual se identifica, ou no qual identifica o homem que a rejeitou. A mulher que vai ao Zoológico, procurando o ódio, mas encontra o amor transbordando no olhar e nas atitudes de cada animal.A mulher era muito solitária e frustrada amorosamente...

Quando ela chega no Zoológico ela vê o quanto de amor que existe lá porque ela fala assim : “Até o leão lambeu a testa da leoa” “Mas isso é amor, é amor de novo”; “Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa” “A macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar”; “Ao elefante fora dado com uma simples pata esmagar. Mas não esmagava, potência que se deixaria conduzir docilmente a um circo”. A partir da observação destas cenas a personagem depara-se com o fato de que as relações entre macho e fêmea não obedecem à mesma lógica que orienta as relações humanas...